Um carregador em casa não é um eletrodoméstico: é um circuito dedicado com regras próprias.
O que decide a solução não é o carro — é a potência contratada e o estado do quadro.
Aqui fica o que exige cada potência, que proteções são obrigatórias e o que perguntar ao instalador.
Modos de carga: por que a tomada Schuko não serve
O Guia Técnico da DGEG define quatro modos de carga: os modos 1 a 3 em corrente alternada, o modo 4 em corrente contínua, o dos postos rápidos de estrada. Os modos 1 e 2 usam tomadas normalizadas: o modo 2, o do cabo que vem com o carro, admite até 32 A, mas a proteção das pessoas depende de um diferencial alojado na caixa de controlo integrada no cabo. O modo 3 é o do carregamento doméstico regular: um sistema de alimentação dedicado, ligado em permanência à instalação, com tomada ou conetor do Tipo 2 conforme a EN 62196-2.
O Guia é direto quanto à tomada doméstica: as tomadas conformes à NP 1260 não devem ser usadas acima de 10 A de corrente de carga, salvo se marcadas de origem pelo fabricante para esse efeito. A Schuko resolve uma emergência, não a rotina de todas as noites.
Potências reais em monofásico e trifásico
O Guia Técnico publica esta correspondência:
| Alimentação | Disjuntor | Potência |
|---|---|---|
| 230 V monofásico | 16 A | 3 680 VA |
| 230 V monofásico | 32 A | 7 360 VA |
| 230/400 V trifásico | 16 A | 11 085 VA |
| 230/400 V trifásico | 32 A | 22 170 VA |
Os números do mercado saem daqui: 3,7 kW são 16 A monofásicos, 7,4 kW são 32 A monofásicos, 11 kW são 16 A trifásicos e 22 kW são 32 A trifásicos. Um carregador de 11 ou 22 kW exige alimentação trifásica.
Potência contratada: o limite que faz disparar o quadro
Em baixa tensão normal a potência contratada organiza-se por escalões, de 1,15 kVA a 41,4 kVA: até 10,35 kVA a ligação é habitualmente monofásica, acima disso passa a trifásica, segundo o simulador da ERSE.
O carregador soma-se ao resto da casa. O Guia Técnico exemplifica: para um circuito de carregamento de 3 680 VA, o escalão mínimo a considerar seria já de 4 600 VA. Uma casa com 6,9 kVA e um carregador de 7,4 kW não convive sem gestão de carga. As saídas são três: subir de escalão, passar a trifásico, ou limitar o carregador.
O quadro elétrico: circuito dedicado, cabo e proteções
Cada veículo liga-se por circuito dedicado, que só alimenta o posto de carregamento e os consumos auxiliares relacionados. O Guia fixa mínimos verificáveis: secção não inferior a 2,5 mm², corrente de serviço não inferior a 16 A, queda de tensão até ao ponto de conexão não superior a 5 % e disjuntor com curva C ou D.
Exige-se corte e seccionamento na origem e em cada circuito final; as fichas e tomadas não fazem função de corte. Para sobretensões, o Guia recomenda descarregadores instalados o mais perto possível da origem da instalação.
O diferencial certo: a questão da componente contínua
Cada ponto de conexão deve ser protegido individualmente por um dispositivo diferencial, no mínimo do tipo A, com corrente diferencial-residual não superior a 30 mA.
O tipo A, sozinho, pode não bastar. Como a eletrónica do veículo pode gerar correntes de defeito com componente contínua, o Guia exige, com tomadas ou conetores da série NP EN 62196, uma de três soluções: diferencial tipo B; tipo A com dispositivo de deteção das componentes contínuas conforme a IEC 62955; ou tipo F com esse dispositivo. Dispensa-se se o posto de carregamento já as garantir.
Muitos carregadores incorporam deteção de corrente contínua residual a 6 mA, o que permite um tipo A a montante em vez de um tipo B, conforme documentação de fabricante. Quem instala confirma isso na ficha técnica, não presume. E o diferencial corta todos os condutores ativos, neutro incluído, sem rearme automático.
Gestão dinâmica de carga
É um medidor na entrada da instalação que informa o carregador da potência disponível. O carregador reduz ou suspende a carga quando a casa puxa muito, e retoma quando alivia. Evita o disparo do disjuntor geral sem obrigar a subir de escalão.
O Guia prevê para este efeito um Sistema de Controlo da Carga que, nos modos 3 e 4, regule a corrente de carregamento. A ERSE descreve o mesmo mecanismo.
Carregar com o excedente solar
Se já tem painéis, a ideia é óbvia: carregar o carro com o que sobra ao meio-dia em vez de injetar na rede. Funciona, com um limite que convém conhecer: o modo 3 tem uma corrente mínima.
Segundo documentação de fabricante, a corrente mais baixa a que um veículo carrega é 6 A — cerca de 1,38 kW em monofásico e cerca de 4,14 kW quando a carga é trifásica. Abaixo desse excedente, ou o carregador não arranca, ou vai buscar a diferença à rede — há equipamentos que comutam para monofásico para não desperdiçar produção. E a ERSE lembra o óbvio: em dias nublados o carregamento solar é mais lento ou precisa da rede.
Com bateria em casa o comportamento muda. O carregador e o inversor híbrido — nas nossas obras, Deye — competem pela mesma energia, e uma configuração errada acaba a descarregar a bateria para alimentar o carro, como os fabricantes advertem. Exige prioridades definidas.
Sem bateria, a produção que o carro não usa no momento vai para a rede. Veja porque é que o autoconsumo com bateria compensa guardar o excedente.
Enquadramento em Portugal e a rede MOBI.E
Um carregador em garagem particular sem acesso público é um ponto de carregamento de acesso privativo. Segundo as perguntas frequentes da DGEG, esses pontos não carecem de licença de operador de pontos de carregamento — o que não significa ausência de obrigações.
A DGEG estabelece que a instalação só deve ser executada por Entidade Instaladora de instalações elétricas de serviço particular ou por técnicos responsáveis pela execução registados na DGEG, e que a alimentação ligada a uma instalação de utilização necessita de acompanhamento por técnico responsável pela exploração, nos termos do Decreto-Lei n.º 96/2017. Em edifício multifamiliar acresce a comunicação escrita ao condomínio, com 30 dias de antecedência.
Havendo produção fotovoltaica, o título da UPAC segue as suas regras: mera comunicação prévia até 30 kW de potência instalada e registo acima desse valor. O carregador é consumo, não produção, e por si não cria título novo; se a obra alterar a potência instalada, o título tem de acompanhar — ponto a confirmar caso a caso.
Quanto à rede MOBI.E: os pontos na via pública ou em espaços privados de acesso público integram a rede de mobilidade elétrica e são geridos por operadores licenciados; os de acesso privado, não. O regime foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º 93/2025, e as inspeções quinquenais que dele constam recaem sobre as instalações de acesso público.
O que perguntar ao instalador
- É modo 3 com tomada ou conetor do Tipo 2?
- Que corrente por fase fica configurada, que potência real dá, e como se altera depois?
- O circuito é dedicado? Que secção, que queda de tensão e que disjuntor, calibre e curva?
- Que diferencial: tipo A com deteção de 6 mA no carregador, tipo F com dispositivo conforme a IEC 62955, ou tipo B? Onde está escrito na ficha técnica?
- Está previsto descarregador de sobretensões e verificação do circuito de terra?
- A potência contratada chega? Se não, quem trata do pedido ao operador de rede?
- Tem gestão dinâmica de carga? Onde fica o medidor de corrente?
- Com painéis: comunica com o inversor, qual é a potência mínima de carga e que prioridade face à bateria?
- Qual é a entidade instaladora registada na DGEG, quem é o técnico responsável e que documentação recebo?
Erros comuns
- Carregar em Schuko como rotina. Ignora o limite de 10 A das tomadas domésticas comuns.
- Diferencial errado. Pôr um tipo A sem confirmar a deteção da componente contínua — ou pagar um tipo B onde o equipamento já a garantia.
- Instalar sem verificar o quadro. Sem circuito dedicado, sem terra verificada e sem contar a potência da casa, o disjuntor geral dispara logo.
- Dimensionar pelo carro e não pela instalação. Um carregador de 22 kW não serve numa ligação monofásica.
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A JP Solar Solutions projeta e instala autoconsumo, armazenamento e carregamento de veículos elétricos no Centro e Norte, com equipa técnica própria a partir de Esmolfe, Penalva do Castelo. Alvará IMPIC 112765. Credenciais DGEG: EI n.º 3369 e TR Mickael Antunes DGEG 89244. Proposta sujeita a visita técnica. O que inclui a instalação, em casa, na empresa ou num prédio, está em instalação de carregador de carro elétrico.
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Fontes
- DGEG / CTE 64 — Guia Técnico das Instalações Elétricas para Alimentação de Veículos Elétricos, Edição 3 (aprovado pela DGEG em 18 de setembro de 2023) — confirma os quatro modos de carga e os limites de corrente dos modos 1 e 2; a tomada ou conetor do Tipo 2 conforme a EN 62196-2 no modo 3; o limite de 10 A para tomadas domésticas NP 1260 e a recomendação de as restringir a instalações existentes; o Quadro 2 de potências para dimensionamento (3 680, 7 360, 11 085 e 22 170 VA) e o exemplo do escalão mínimo de 4 600 VA; o circuito dedicado, a secção mínima de 2,5 mm², a corrente de serviço mínima de 16 A, a queda de tensão máxima de 5 % e a curva C ou D; o dispositivo de corte e seccionamento e a proibição de usar fichas e tomadas para corte; a altura de instalação entre 0,5 m e 1,5 m; a recomendação de descarregadores de sobretensões junto à origem; o diferencial individual no mínimo do tipo A com 30 mA, as três soluções admitidas para a componente contínua (tipo B, ou tipo A ou F com dispositivo conforme a IEC 62955) e a dispensa quando o posto de carregamento as garante; o corte do neutro e a proibição de rearme automático; e o Sistema de Controlo da Carga com regulação da corrente nos modos 3 e 4.
- DGEG — Mobilidade Elétrica: Perguntas Frequentes — confirma que os pontos privados de acesso restrito não carecem de licença de operador de pontos de carregamento; que a instalação só deve ser executada por Entidade Instaladora de instalações elétricas de serviço particular ou por técnicos responsáveis pela execução registados na DGEG; que a instalação de alimentação ligada a uma instalação de utilização necessita de acompanhamento por técnico responsável pela exploração, nos termos do Decreto-Lei n.º 96/2017; e o prazo mínimo de 30 dias para a comunicação escrita ao condomínio.
- DGEG — Inspeções periódicas de pontos de carregamento — confirma que as inspeções periódicas quinquenais previstas no Decreto-Lei n.º 93/2025 recaem sobre as instalações de carregamento de acesso público e os respetivos operadores.
- DGEG — Legislação Aplicável e Despachos DGEG — confirma que o Decreto-Lei n.º 93/2025, de 14 de agosto, aprova o novo Regime Jurídico da Mobilidade Elétrica, e a aplicabilidade do Decreto-Lei n.º 96/2017 às instalações elétricas de serviço particular.
- DGEG — Autoconsumo e CER: pedido de inscrição e registo — confirma a mera comunicação prévia até 30 kW de potência instalada, o registo acima de 30 kW e a submissão no portal aplicacional da DGEG.
- ERSE — Mobilidade elétrica: como funciona — confirma que os pontos de carregamento na via pública ou em espaços privados de acesso público integram a rede de mobilidade elétrica, e que os pontos em locais privados de acesso privado, como garagens particulares sem acesso público, não estão integrados nessa rede.
- ERSE — Guia do Autoconsumo em Condomínios com mobilidade elétrica — confirma que os sistemas de gestão de carga dinâmica reduzem automaticamente a potência de carregamento para não ultrapassar a potência contratada; que a velocidade de carregamento depende da potência do carregador e da energia gerada no momento pelos painéis; e que em dias nublados o carregamento solar pode ser mais lento ou exigir energia da rede.
- ERSE — Simulador de Potência Contratada — confirma que os escalões normalizados de potência contratada vão de 1,15 kVA a 41,4 kVA, sendo a ligação monofásica habitual até 10,35 kVA e trifásica acima desse valor.
- Hager — RCD Requirements for EV Charging (documentação de fabricante) — confirma que, quando o equipamento de carregamento incorpora deteção de corrente contínua residual a 6 mA, pode ser usado um diferencial do tipo A, e que na ausência dessa deteção é necessário um tipo B, com corrente diferencial-residual máxima de 30 mA e corte de todos os condutores ativos.
- Wallbox — Solar Charging: ativação e guia de utilização (documentação de fabricante) — confirma que a corrente mínima a que um veículo carrega é 6 A, cerca de 1 380 W em monofásico e cerca de 4 140 W em trifásico (3 × 6 A), e que o carregamento com excedente solar pode descarregar o sistema de armazenamento da casa.